
Se a minha vida tivesse uma trilha sonora, com certeza teria o nome dos Los Hermanos no meio. Parece que toda letra tem um trechinho que foi feito pra mim. Como naquela vez em que eu soube da traição do senhor xis, e ouvi aquela música Não consigo entender, me trocar por outro alguém, traição já é demais (...). Eu passei dias, horas, vibrava com essa música. Cada vez que a ouvia ou que a cantava, parecia que tinha sido feita pensando em mim! E das vezes que eu brigava com o menino? Tira esse azedume do meu peito, e com respeito trate minha dor!(...) Eu era a própria revolta sentida no som! E o mais engraçado é depois, quando tudo passa e você se lembra de como tudo era tão intenso e parecia não ter fim, nem ter futuro. Como a gente se engana, não é?
Eu me lembro dos meus doze anos, quando eu me apaixonei perdidamente por um rapazinho que estudava comigo no colégio. Ele era lindo, e o nome dele parecia ter saído de alguma página de um livro antigo, daqueles que emocionam, sabe? Daqueles que a gente só larga quando sabe o fim? A gente se dava muito bem, e eu o adorava! Mas ele só me via como amiga, coitada de mim... Fiquei tão triste. Pensei que nunca mais ia me apaixonar de novo, pensei que nunca mais ia encontrar alguém que fosse pelo menos metade do que ele era pra mim. Sabe, adolescente é um bixo engraçado, sente tudo como se fosse pra sempre. E depois a gente cresce e ri daquele tempo, porque agora a gente sabe que não é todo pra sempre que é pra sempre. Depois a gente aprende que a chuva para, o asfalto quebra, a noite cai, a alegria é como cosquinha e uma hora, uma hora a gente tem que ir pra cama. E a vida passa a ser mais bela, mais tranquila, mais pacífica. Tudo melhora.
Aí a gente se apaixona de novo, chora de novo, sofre de novo, sente tudo com a mesma intensidade que antes – talvez até mais, porque agora a gente sabe que o cheiro de coisa nova passa com o tempo – e quando tudo termina, agente ainda pensa que nunca mais vai sentir de novo. Coisa engraçada é a maturidade, parece que quanto mais a gente aprende, mais burro fica! Mas também, se não fosse assim não teria a mínima graça! Não tem nada melhor do que se apaixonar! Sonhar todas as noites, sonhar acordada, sentir aquele friozinho na barriga, ficar feliz só de ouvir a voz dele. Arrepiar até a espinha sentindo o toque... E chorar feito louca quando briga, achar que vai morrer solteira quando termina.
Lúcia, amor e tosse não dá pra esconder. Nunca mais eu esqueço! Acabei de ver essa frase e não pude deixar de rir da simplicidade e profundo senso de realidade de quem escreveu. De fato, são duas coisas que não dão pra esconder. No máximo a gente abafa com a mão pra não deixar ninguém ouvir, mas no fim das contas, todo mundo acaba sabendo que a gente ama e tosse, sempre que se sente pra sempre e às vezes nunca.
Cada um com o seu cada qual. Eu tinha um cada-qual, mas pedi que ele fosse embora pra eu poder ser feliz sendo só um cada-um. Daí, de repente, quando eu menos esperava, quando eu sequer me sentia às vezes nunca, a vida me trouxe um novo cada-qual. Até bem parecido com aquele outro de quando eu tinha doze anos, e por alguns dias, eu tenho me sentido com doze anos novamente; só que com um tantinho mais de vontade, de bem querença, de miolo na cabeça. Às vezes eu me sinto um pouco seque-a-boca-de-promessas e cada vez mais me-procure-quando-estiver-mais-que-metade. Eu acho que mereço um pouco mais que metade, não é?! Afinal quem gosta das coisas assim, pela metade? Quem prefere a bala de coco faltando um pedaço, ou só um teco do pão-de-ló? Eu não. Eu gosto de ser a laranja inteira da minha metade que falta – evita perdas inevitáveis, buscas intermináveis, sedes insaciáveis. A parte que não cabe, é que eu continuo querendo e sendo interminavelmente inevitável e insaciável – com a graça de Deus.
Esperar – eis o meu fardo.
“Você tem que ser mais Escorpião e cortar fora a parte ferida. Chega de meias-solas e paliativos. Na minha opinião, você precisa de UMA BOA CAMA (ou várias) […]. Toma um porre, fuma um baseado, mas por favor — desguia.”
